Eu devia ter lá pelos treze ou quatorze anos quando — provavelmente numa medonha “aula de religião” ministrada por um ex-padre, que nos dava longas listas de referências de versículos para os encontrarmos na Bíblia e copiarmos no caderno — li no primeiro capítulo da Primeira Epístola paulina aos Coríntios que “o que é loucura em Deus é mais sábio que os homens[;] […] as coisas loucas segundo o mundo, escolheu Deus para confundir os sábios”. Subitamente, para mim, uma imensidão de coisas começou a fazer sentido. Eu via os valores da sociedade ao redor de mim, aquela mistura bizarra da moral burguesa com a contracultura de Maio de 68, e eles me pareciam completamente absurdos. Quem seria eu, entretanto, para prestar julgamento sobre o conjunto da sociedade em que vim a nascer? Mas eis que, com este trechinho, São Paulo me deu a dica mais fundamental da minha vida, antecipando o uso metafórico do teorema de Gödel, dois milênios posterior: há uma sabedoria maior, e só por ela se pode perceber a loucura do que lhe é inferior. Assim como muitas vezes as pessoas que estão em um conflito não conseguem perceber a saída, mas uma terceira pessoa que o conheça pode percebê-la, é impossível entender completamente uma situação usando apenas o ferramental próprio dela. É necessário algo maior. E este algo maior é — ensina o Apóstolo — a sabedoria divina, ou o que é loucura para o mundo mas sabedoria para Deus.

Daí eu passei a ler o resto daquele volume em que encontrara aquela frase. Li a Bíblia toda, várias vezes, primeiro ao longo da adolescência — em que eu não era religioso, mas tinha consciência plena de que havia um buraco do tamanho de Deus na minha vida, e o procurava por toda parte — e, depois de dobrar o joelho, ao longo do resto de minha porca vida, sempre achando nela fartos exemplos da sabedoria divina e da loucura deste mundo. Assim comecei um amor que nunca acabou nem se acalmou. Eu, decididamente, amo a Sagrada Escritura. Foi a partir dela que eu encontrei a Igreja, cuja importância e unicidade é evidente para quem leia o Novo Testamento sem antolhos, e foi na Igreja que eu encontrei Deus Nosso Senhor.

Eu nunca tive contato próximo com a heresia protestante até depois de já ser católico por anos e de já ter inúmeras vezes devorado a Bíblia de uma capa a outra e estudado bastante sobre ela, sua formação, traduções, manuscritos e tudo o mais. Mas desde a primeira vez em que tive o delicioso prazer de ler a Sagrada Escritura, se alguém me houvesse vindo com a idéia absurda de que a Escritura seria de alguma maneira ou bem um “manual” em que se deveria, por conta própria, “descobrir” a verdadeira religião ou — pior ainda, uma maldade divina absurda!, dada a sua evidente inadequação a tal fim — a totalidade do Evangelho, da Boa Nova, da comunicação de Cristo aos homens, eu certamente acharia que o sujeito estava louco. É evidente que não só não há como “extrair” uma religião da Bíblia, como que ela não se se pretende ser nenhuma das coisas. Ela é evidentemente parte de um todo muito maior. E, do mesmo modo, a importância da Igreja única salta aos olhos no Novo Testamento, assim como a relativa desimportância de textos escritos em relação à totalidade da Revelação e da continuidade da presença do Salvador entre nós na Igreja.

O que é, então, a Bíblia? Para mim, sempre foi evidente que a Bíblia é uma belíssima série de cartas de amor entre Deus e Seu povo: primeiro com os patriarcas e os hebreus, no Antigo Testamento, e depois com a Igreja, novo Israel, à qual somos todos chamados, no Novo Testamento. Faz exatamente tanto sentido pegar a Bíblia e “fundar uma Igreja” como pegar cartas de amor trocadas entre Joãozinho e Maricota e tentar convencer o Joãozinho de que somos a Maricota, usando as cartas como “prova”. Ora, se não somos a Maricota, as cartas não são nossas. Não se referem a nós, nem temos qualquer memória, que não a da leitura, que nos oriente até mesmo na compreensão dos detalhes, das tantas e tantas alusões que apaixonados fazem um ao outro. E, mais ainda: este amor, no caso da Escritura, não é um mero amor humano. É O Amor, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o que faz com que a Escritura inspirada pelo Santo Espírito não seja nem cartas da Igreja a Deus entremeadas de cartas de Deus à Igreja, nem apenas cartas de um lado para o outro ou do outro para o um. O Amor está em ação na inspiração divina da Igreja, de que deriva a inspiração divina dos autores sagrados. Assim, quando, por exemplo, São Lucas quase pede desculpas por sua decisão de ter resolvido escrever um livro que quase 400 anos depois a Igreja definiu como inspirado, é provável que ele mesmo não soubesse que escrevia sob a inspiração do Santo Espírito. Que escrevia no Amor Divino. E que, assim, o que escrevia não era uma carta sua a Teófilo (“amante de Deus”: a Igreja, o povo de Deus, cada cristão!), mas ao mesmo tempo uma carta de amor de Deus à Igreja e uma carta de amor da Igreja a Deus. A união entre cada autor sagrado e Deus ocorre pelo e no Espírito Santo, e assim cada livro da Escritura é ao mesmo tempo obra da Igreja feita em homenagem a Deus e carta de amor de Deus à Igreja. Ou, melhor ainda, carta do Amor de Deus, carta no Amor de Deus.

É por isso que São Paulo explica, ainda aos mesmos Coríntios do meu amor à primeira vista, que “ninguém pode dizer ‘Senhor Jesus’ senão pelo Espírito Santo”. Em outras palavras: é apenas quando se está na Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo (Segunda Pessoa da Santíssima Trindade), cuja “alma” é o Espírito Santo (Terceira Pessoa), que se pode proclamar o senhorio do Cristo. Quando alguém que não habita este Mistério, este sacramento universal de salvação que é a Igreja — sinal visível e eficaz de uma realidade sobrenatural invisível — tenta afirmar o senhorio do Cristo, na verdade está a negá-lo. O “cristo”, o “jesus” que ele afirma não é o verdadeiro. Ao contrário, até: é um “jesus” de criação humana, uma mera projeção da sabedoria do mundo tentando se fazer passar por sabedoria de Deus. Por maiores que sejam as letras com que se escreva isso na parede da seita, é uma negação em ato do que se julga estar afirmando.

E quis a Divina Providência que eu só fosse ter contato com essas loucuras no modo protestante, de bibliolatria, depois de não só adulto, mas estudado. É por isso que outro dia, ao ler uma narrativa sobre problemas internos duma seita americana tão herética, mas tão herética, que se faz chamar “Igreja(!) Batista(!!) Fundamentalista(!!!)”, saltaram-me aos olhos várias coisas. A primeira delas, que vi num texto que acabei compartilhando, era uma enumeração de razões por que um sujeito que foi “pastor” na seita por décadas e depois tornou-se ateu afirma “odiar jesus”. Ora, pensei eu, quem não odiaria esse “jesus”?! Afinal, este amiguinho imaginário (pois, como sói ocorrer nas seitas, eles caíam no mesmo erro de base que expliquei em outro artigo) nada mais é que uma projeção personalizada de uma série de preconceitos e tabus locais. Chesterton, ao escrever sobre a moral americana, disse que por ausência de moral eles elevam tabus e gostos locais a um seu sucedâneo. Mas o que vi ali era ainda mais grave: era nada mais nada menos que a idolatria de um falso “jesus”. De um “deus” de criação humana, em oposição ao Deus único. Mas como chegaram lá esses pobres coitados? Que armadilhas foram usadas pelo Inimigo para aprisioná-los assim tão tantalizantemente próximos da Verdade, da mesma Verdade que eu, pobre idiota terceiro-mundista, havia facilmente encontrado a partir do mesmo instrumento, das mesmas cartas de amor que eles liam e reliam?! Como podia alguém ler as mesmas cartas que eu e não perceber sequer quem são os atores, os autores, desse amor e dessas cartas??!!

Aí, ainda dentro dum desses buracos-negros em que a internet nos joga, navegando de linque em linque, eu achei uma longa acusação contra um “pastor”, pelo jeito sujeito muito importante na seita, que consistia de pouco mais que uma série de pecadilhos sexuais. Como, porém, o tabu local os torna coisa provavelmente mais pesada que um homicídio (imbecilidade que infelizmente importamos aqui, como prova o caso Flordelis; importar porcaria gringa parece ter-se tornado a especialidade do brasileiro médio), e como aparentemente entre as crendices da seita estaria uma suposta imunidade ao pecado por parte dos figurões (confesso que não tentei entender muito este ponto lateral), a coisa virou um furacão de acusações e contra-acusações. E, dentre elas, uma chamou-me a atenção e me espantou: o tal safadinho diferiu de seus pares na seita por aparentemente considerar inspirada a “King James Version” (tradução da Bíblia para o inglês, publicada em 1611 pelo Rei Tiago VI, aliás muito bonita), enquanto os seus coleguinhas de picadeiro diziam que “os manuscritos originais da Bíblia” é que seriam inspirados. Ora, pitombas, não sei o que poderia ser pior.

Mas, pelo que vim a entender no curso das leituras sobre os problemas da tal seita, eles simplesmente não conhecem nada da história da Escritura. É claro que é absurdo um gringo doido qualquer, de terno e gravata, do alto de seu cadilaque, com gomalina no cabelo, resolver “canonizar” uma certa tradução. Mas mais absurdo ainda é ignorar, literalmente, o que é a Bíblia, em termos históricos. E, realmente, numa historieta lateral vi que o sujeito que era “pastor” e virou ateu disse ter tido os olhos abertos por um livro que nada mais é que uma vulgaríssima enumeração de diferenças entre manuscritos antigos, coisa feita para o público leigo, leiguíssimo. Mas pelo jeito nem ele nem nenhum dos outros sectários sequer desconfiava de que não há “manuscritos originais da Bíblia”. Que, mais ainda, há diferenças substanciais entre os manuscritos antigos existentes, tanto na presença ou ausência dum que doutro versículo quanto — até a Igreja definir, às vésperas do Século V, o cânone bíblico — nos livros que os compõem. E por aí vai.

Parte da “árvore genealógica” de manuscritos bíblicos

E aí, para me ajudar e perceber mais claramente o tamanho do delírio dos caras, apareceu um troll maluco nos comentários dum vídeo que compartilhei no saite feices, em que uma crente doida tenta derrubar uma imagem da Mãe de Deus com um cabo de vassoura em que, a julgar pelas aparências, ela deve ter chegado voando. O troll, aparentemente firmemente convicto de que ninguém ali jamais havia visto uma Bíblia de perto, começou simplesmente copiando e colando um versículo do Êxodo que condena a fabricação de imagens de ídolos. Não sei se ele esperava que fôssemos todos recuar, horrorizados, subitamente apresentados a tão nobre versículo, de cuja existência certamente seríamos ignorantes até que ele o apresentasse. Na verdade, até agora não consigo, confesso, me botar perfeitamente na pele de alguém que faz tão absurdo quanto tentar usar uma obra da Igreja como “prova” contra ela mesma, como se a Igreja não conhecesse o que canonizou, mas ao mesmo tempo desse ao mesmo texto funções de oráculo divino. Não tem como fazer sentido.

Aí, claro, apareceu gente paciente e bem-intencionada apontando para ele que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Aliás, talvez houvesse sido melhor se alguém apontasse que idólatra no vídeo era a bruxa da vassoura, mas tenho certeza de que ele simplesmente não entenderia. Mesmo porque, para diversão sádica de alguns, o sujeito continuou copiando e colando trocentos versículos bíblicos, sem conseguir por um instante que fosse perceber que o “problema” não era, de modo algum, ignorância da existência ou conteúdo deles por parte da Igreja que os escreveu e canonizou, mas a exegese absurda que ele parecia considerar evidente. Pior: parece-me que ele não era sequer capaz de entender que necessariamente exegese, ou seja, que o texto não se aplica sozinho a nada, não sai voando do volume, versículo por versículo, para colar-se em condenação à testa daqueles a quem se aplica. Ele aparentemente era incapaz de perceber que a escolha é entre o entendimento universal da Igreja e o que ele tira de algum lugar onde o sol não bate, sem sequer se dar conta de estar tomando decisões próprias (e muito doidas) acerca de seu sentido e aplicação. Transformando em reflexo de sua loucura um texto que estava lá quietinho e que — pra piorar — não tem nada a ver com as manias dele. Pitombas, não precisava ir numa postagem católica para dar-se conta disso: bastaria que fosse a postagens feitas por gente de outras seitas que não aquela cuja tradição oral ele estava repetindo como papagaio no enfileirar de versículos que considerava autoaplicativos por se conformarem à dita tradição oral. Todas usam, mal que bem, pelo menos o mesmo cânone faltando livros, e mesmo assim cada uma prega uma barbaridade diferente.

Mas, voltemos, então ao meu pobre amor ao Amor, à minha paixão por esta belíssima correspondência ocorrida no seio do Santo Espírito. Confesso que a minha primeira reação diante desse tipo de coisa mencionada acima é de indignação; é como se alguém houvesse tirado fotos de uma moça na intimidade e saísse mostrando-as por aí. É um uso masturbatório e odiento de algo que deveria manter-se no seu contexto de amor. Ou de Amor. E, claro, a coisa fica muito pior por serem os Amantes estes. Esses bibliólatras, que trocam o Cristo Senhor por versículos fora de contexto, que usam do texto da Escritura contra ela mesma, deste dom magnífico de Deus à Igreja e da Igreja a Deus contra Deus, contra a Igreja e contra eles mesmos, são como pretendentes rejeitados que tentam levar à prostituição a Donzela com quem não conseguiram unir-se por terem querido fazê-lo nos próprios termos e não nos dela.

Afinal, só para começar com o que enlouqueceu o gringo que largou a seita: que Bíblia é esta? Nem falo das versões protestantes, mas da Escritura como um todo. Ela é tão da Igreja pra Deus quanto de Deus pra Igreja; tanto é que na maior parte dos ritos litúrgicos o ambão fica virado para o altar, por ser a leitura da Escritura uma oferta da Igreja a Deus tanto quanto de Deus à Igreja. Um ato de culto, que vai da Igreja para Deus, oferecendo-Lhe o que Ele suscitou nela. Mas, repito, que Bíblia é esta?!

A Igreja nos ensina que o padrão, ou seja, o que determina quais os livros e, dentro deles, quais os fragmentos de texto (versículos, pedaços de versículos, etc.) inspirados é simples: a Vulgata. Se está lá é inspirado, se não está não é. Mas o que significa “inspirado”? Seria necessariamente igual aos fantasmagóricos “manuscritos originais da Bíblia”, pelos quais juram em vão os falsos pastores da seita que citei acima? Não, mesmo por ser a Vulgata uma tradução. Muito mais antiga que os manuscritos mais antigos em grego e hebraico hoje ainda existentes, mas mesmo assim apenas uma tradução. E, mais ainda, como os estudos mais recentes provam fartamente, uma tradução feita a partir de vários manuscritos, em várias línguas, que continham diferenças em vários pontos.

A própria Igreja diz apenas que a Vulgata está isenta de erros de Fé e Moral. Ou seja: se a decisão de São Jerônimo de manter o hebraísmo “cornos” para se referir ao poder de Moisés, levando muitas de suas estátuas a mostrá-lo literalmente chifrudo, foi ou não uma boa escolha tradutória, isso a Igreja não diz. Só diz que aquele texto é o padrão, e que não tem erros de Fé e Moral. Como, afinal, a Fé e a Moral são definidas à medida do necessário pela Igreja, não inventadas por cada um partir da própria compreensão do texto da Escritura (compreensão esta que, claro, é influenciada por inúmeros fatores, dentre os quais a cultura do século, as modas do momento, o estudo que a pessoa tem ou deixa de ter, o sentido que ela pessoalmente prefere encontrar, e por aí vai), realmente não é o fim do mundo. Inclusive, em termos de escolha de padrão, os cristãos orientais, preferindo (a meu ver com boas razões, mas isto é assunto pra outro texto) o Antigo Testamento grego da Septuaginta às versões hebraicas (judaicas) e siríacas (cristãs) que São Jerônimo cotejou com (algumas versões diferentes de) a Septuaginta, tendem a fazer outras escolhas sobre este ou aquele pedaço, sem tampouco criar com isso problema algum.

E assim há uma enorme quantidade de trechos, muitos dos quais importantes, para os quais nós, na Igreja em que e para a qual Deus suscitou os autores sagrados, temos fácil solução: se o Concílio de Trento definiu que o padrão é a Vulgata (é claro que sempre se pode perguntar qual versão da Vulgata, mais ainda na medida em que, com a Neo-Vulgata, estamos na terceira oficial e na época do Concílio ainda não havia sequer uma primeira versão original; mas o problema continua infinitamente menor que para alguém que prefira a bíblia a Deus!), basta conferir para ver se está lá o texto em questão. Algumas versões da Bíblia Ave-Maria trazem em itálico trechos que não estão na Vulgata, aliás, coisa que eu acho péssima por induzir a erro. Afinal, o vulgo não sabe de nada disso e pode tomar por inspirado o que é mera interpolação. Mesmo assim, o erro não tem como ir muito longe, na medida em que não lhe compete inventar doutrinas (em geral sob o eufemismo de “descobri-las”), como no protestantismo compete a cada leitão, ops, leitor da bíblia.

Mas e as interpolações presentes na Vulgata? Afinal, há coisas que parecem ter circulado, já nos primeiros séculos, em várias versões diferentes. Faria mais sentido, em muitas delas, julgar que tenham sido interpoladas, ou seja, que não tenham saído diretamente da pena de São João, por exemplo, mas sim sido adicionadas por um dos primeiros copistas, como glosa, vindo depois a incorporar-se ao texto bíblico. A “King James Version”, aliás, por ter sido baseada em grande medida nas edições mais tardias da recensão crítica de Erasmo de Roterdã, traz muito mais casos assim que as versões mais modernas (é por isto, aliás, que ao fazer apologética em inglês vale entrar na viagem do tal falso pastor e definir que o texto usado na discussão será apenas o da KJV: é o mais próximo da Vulgata, e a crentaiada de lá está acostumada com a idéia de haver quem a tenha por padrão), que tendem ao minimalismo.

É aí que a Escritura pode ser percebida ainda mais perfeitamente em sua relação com a Igreja: se a Igreja definiu que aquele trecho é canônico, aquele trecho é canônico. E pronto, acabou-se. Afinal, a própria Bíblia é, toda ela, fruto da definição eclesial. Basta ver como os manuscritos mais antigos do Novo Testamento grego não trazem o Apocalipse (logo o Apocalipse, que a crentaiada tanto curte!), por, sendo anteriores à definição do cânone pelo Papa São Dâmaso, aderirem ao cânon neotestamentário considerado mais provável nos primeiros séculos. O próprio São Jerônimo, em parte por hebraísmo, “desconfiava” de vários livros veterotestamentários que depois acabaram comprovando-se inspirados. Incluiu-os na Vulgata por ordem papal.

E assim temos hoje em nossas mãos a Escritura tão apaixonante. Antes que me perguntem, eu uso a tradução de Pe. Mattos Soares (feita diretamente da Vulgata, e a mais tradicional na literatura de língua portuguesa) para citar, e a própria Vulgata para estudar. Mas — e é esse o grande barato — nós temos a enorme graça de não achar que a Sã Doutrina é uma coisa escondida por Deus, numa brincadeira de mau gosto, que deveria ser achada “codificada” na bíblia. Ao contrário: nós sabemos que a Bíblia reflete perfeitamente a Sã Doutrina, que é ensinada pela Igreja e não se resume (nem poderia se resumir, aliás) ao que está escrito na Escritura. Vale perceber que na prática é isso mesmo que fazem as seitas protestantes, a não ser no momento exato em que um sujeito, cansado de não concordar com as besteiras que ouve na seita que frequenta, pega a bíblia e inventa novas (daí em geral fundando outra seita, em que outros ficarão fulos com as besteiras dele, etc.). Na vida cotidiana, ou seja, no caso da imensíssima maioria de protestantes que não criam seitas novas, só vão bater palmas e cantar duas vezes por semana com os amigos, o que se tem é uma doutrina transmitida oralmente (que, ao contrário da que a Igreja ensina, todavia, é completamente de invenção humana), com a bíblia sendo usada basicamente como uma espécie de repositório de frases soltas que podem ser citadas para servir de “base” à besteira que o fundador da seita ou seu último “reavivador” tenha inventado. É por isso que a cada geração as seitas mudam de doutrina: para adaptar-se às modas do Século.

É em parte por isto, por esta percepção da bíblia como uma série quase desconexa de versículos a usar como “base bíblica” das besteiras pregadas, que eles têm tanta dificuldade em entender não apenas para que serve a Bíblia, mas o que ela é. É daí também, claro, que quando um protestante vem perturbar a paciência do católico acerca de qualquer coisa que ele não entenda na Igreja, a primeira coisa por que ele pergunte seja “qual é a ‘base bíblica’?”, chamando assim o católico para uma espécie de supertrunfo de versículos. Como o católico não vê assim a Bíblia nem assim abusa dela, no mais das vezes o que ele faz é mandar o herege ir procurar sua turma, com razão. Afinal, o erro não é o que quer que a Igreja ensine (ou, mais frequentemente, que o herege ache que ensina), sim esse estupro da Escritura que é ficar atrás de “base bíblica” pras coisas. É recortar as cartas de amor pra fazer joguinho de supertrunfo. É coisa de quem nem começou a entender o que seja a Escritura, e um tremendo desrespeito a ela. É fazer do amor conjugal pornografia barata.

E também, claro, é dessa visão no mínimo bizarra da bíblia que surgem superstições como a inspiração apenas dos inexistentes “manuscritos originais”: ela permite que se possa inventar doutrinas a partir de traduções mais recentes (logo mais afinadas com o espírito do Século), alegando que elas estejam mais próximas do original ou besteira do gênero. Há alguns meses, recebi a visita de um amigo americano que é pastor. Contei-lhe que, como minha esposa me deixou, tenho que viver em perfeita castidade. Ele começou a dizer que não era bem assim, e eu o interrompi dizendo uma palavra: “πορνεία”. É, apontei, o termo grego que traduz na Escritura o que Nosso Senhor há de ter dito em aramaico como sendo a única exceção para a indissolubilidade do matrimônio. Continuei dizendo que teríamos duas escolhas: ou definir por conta própria o que nós queremos que o termo signifique — o que, lembrei, implica num sério risco de definir como significando não necessariamente o correto, mas o que nos torne a vida mais fácil ou prazerosa — ou ouvir a Igreja e aceitar a sua definição, pois é ela que é a coluna e fundamento da Verdade. Deu até para ouvir o barulho dos dentes dele batendo quando fechou a boca.

Mas o problema seria a definição de “πορνεία“? Certamente que não! Como, todavia, era este o quadro de referência do meu amigo, foi por ali que eu fui. Afinal, se fosse para procurar “base bíblica”, ou melhor, a presença na Escritura deste ensino da Igreja, estaria muito mais próximo da realidade apontar as promessas de Nosso Senhor à Igreja, ou mesmo o Cântico dos Cânticos, que trata inteiro disto. Afinal, Ele é o Esposo e ela a esposa, e Ele jamais a abandonaria, jamais a trocaria por outra, mesmo que todos os membros dela d’Ele se afastassem. Seu amor pela Igreja, ou, melhor dizendo, Seu Amor pela Igreja é a alma da Igreja, e não acabaria jamais. Seria inimaginável que Ele trocasse a Igreja de dois mil anos por duas de mil. Mesmo, repito, que ela Lhe fosse infiel. E o ensino da Igreja em relação ao matrimônio e sua indissolubilidade, assim, tem muito mais a ver com eclesiologia que com exegese bíblica. A Escritura, claro, concorda lindamente com o que a Igreja ensina, mas é a Igreja que informa a Escritura, não a Escritura que informa a Igreja. Mesmo porque, como apontei, não se tem sequer como saber qual foi o termo original usado por Nosso Senhor; o que temos por escrito é apenas uma tradução eclesial do aramaico oral para o grego escrito, e deste para o latim, e do latim para o português, e então a minha leitura e compreensão ou incompreensão do texto, e por aí vai. E nem falo nada dos erros dos copistas nos primeiros ¾ da história do Novo Testamento, quando os textos eram copiados manualmente um a um, antes da invenção da imprensa.

A intensa beleza da Escritura, assim, só existe e só pode ser plenamente percebida dentro de um quadro muitíssimo maior, que é o quadro da Igreja viva: da Tradição Oral que se une à Escritura, das definições e atos magisteriais, das vidas dos Santos que a Igreja nos aponta como exemplos, das obras de piedade, da vida na Graça, dos Sacramentos… Quando se lê a Escritura como ela deve ser lida, ou seja, dizendo “Senhor Jesus” firmemente dentro da Igreja, cuja forma é o Espírito Santo, isto tudo há de ser evidente. O Cântico dos Cânticos salta aos olhos em sua dimensão mística, e esta mesma dimensão mística nos induz a aceitar as graças de estado do Sacramento do Matrimônio, que por sua vez encontramos em estado embrionário no Antigo Testamento com a “carta de divórcio” permitida por Moisés pela dureza dos corações… e por não terem ainda ocorrido as bodas de Cristo e da Igreja. E é aí, então, que percebemos a profundidade da parábola das virgens prudentes e das virgens loucas, que não cuidaram de ter o necessário para aguardar a chegada do Noivo e ficaram do lado de fora. E, então, podemos perceber a triste situação de quem — por não ter azeite para suas lâmpadas, tendo ido ter a comerciantes do mundo e assim perdido a chegada do Noivo e a boda — tem a bíblia mas não sabe o que fazer com ela.

E é esta situação de “virgem louca” que, também, torna tão difícil aos hereges o discernimento do que é eterno e do que era simbólico ou pedagógico na Lei de Moisés. Perderam as bodas, e com o azeite do mundo tentam iluminar o caminho por onde o Noivo já passou. É por isto que assim que surgiu a heresia protestante de achar que a filha é a mãe e a mãe é a filha — dando à Escritura o lugar da Igreja tão presente no Novo Testamento que carregam apagado, “sem azeite”, nas mãos, substituindo assim a Igreja Una por uma multiplicidade infinita de portinhas de garagem ensinando disparates — uma das primeiras coisas que fizeram foi ir à cata de supostas “feiticeiras”, que matavam na fogueira como os reis costumavam matar os hereges: queriam dar à ordem veterotestamentária de “não deixar viver uma feiticeira” a mesma importância que davam à ordem, poucas páginas antes, de não fazer imagens de escultura. Não eram capazes de perceber que nem uma nem outra faziam sentido no momento atual. Que o Noivo já tinha chegado, e por ter o Verbo Se feito Carne não era mais necessária a medida pedagógica que visava impedir a adoração de elefantes, sol, lua, ou qualquer outra forma sob a qual os pagãos adorassem demônios. E que, do mesmo modo, a feiticeira, por ser feiticeira, já não vivia mais a vida plena, a vida da graça. Que ela — como eles! — estava nas trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes, não na boda. Não junto do Noivo e da noiva eterna.

E é por isto, tadinhos, que eles conseguem se perder tanto. É por isto que o Inimigo consegue mantê-los em suas garras, dia após dia, mês após mês, fazendo-os crer em falsos “jesuses” (coisa que a própria Escritura já dizia que aconteceria!), mesmo tendo em mãos este belo pacote de cartas. Cartas de amor, cartas do Amor, cartas no Amor, que eles picam, trituram e transformam em tirinhas de papel sorteáveis para justificar sua adesão às besteiras do mundo, às modas do Século.

Que São Jerônimo os ilumine!